Résumés

Table 1 « L’exil »

Um exílio chamado saudade
Humberto Lima de Aragão Filho (Faculdades integradas Rio Branco – São Paulo)

A nostalgia e a saudade são sentimentos que se manifestam na experiência de um exilado, seja o exílio consequência de um degredo, seja resultado de uma saída voluntária em busca de um país longíquo para desfrutar do sonho da liberdade. A nostalgia, especificamente, é uma recorrência ao passado, como se nos desvinculássemos do instante vivido para imergir no infinito abissal do tempo pretérito; a saudade fixa-se na vivência do presente para imantar o passado e resgatá-lo, perenizando-o, ao fragor das lembranças. Um escritor que nasceu na Rua da Saudade, experimentando intensamente esse sentimento, como Miguéis, haveria de escrever sobre a saudade durante todos os dias de sua vida; seu exílio chamar-se-ia saudade.

José Rodrigues Miguéis: « l’exil et le royaume »
Álvaro Manuel Machado (Universidade Nova de Lisboa)

A alusão, no título desta comunicação, ao livro de novelas de Albert Camus não é arbitrária: para José Rodrigues Miguéis como para Camus, toda a obra literária (e em particular a obra de ficção, prevalecente em ambos) gira à volta de uma tensão, digamos, vital entre a experiência do exílio como aprendizagem (frequentemente dolorosa) e o cíclico apelo do cada vez mais longínquo «reino», sendo este ora amado e idealizado ora abominado e mesmo desprezado, visto pelo olhar de quem se sente um proscrito cheio de amargura. Forma-se, assim, uma atitude de constante oscilação entre, parafraseando Camus no final de L’exil et le royaume, ser «solidário» e ser «solitário». A partir deste tema, desenvolve-se uma análise específica, com incidências teóricas comparatistas, de algumas das obras consideradas mais significativas de Rodrigues Miguéis, entre a ficção, a crónica e a divagação memorialística, em particular quatro: Léah e outras histórias (1958), Uma aventura inquietante (1959), A Escola do Paraíso (1960) e O espelho poliédrico (1973).

O homem dividido: mal de ausência e memória das origens nos contos de José Rodrigues Miguéis
Laerte Levai (Universidade de São Paulo)

José Rodrigues Miguéis (1901-1980) viveu num tempo-espaço de transformações, dividido que esteve entre duas cidades, dois continentes, dois tempos. Sua obra, a partir de 1935, seria marcada pelo exílio, refletindo o cenário obscuro de um período histórico que oscilava entre a esperança e o medo. Nesse período de efervescências sociais a crise política implantou regimes totalitários por quase toda a Europa e fez com que os espaços existenciais se tornassem, de repente, espaços opressivos assolados pelo espectro dos genocídios e pelo fenômeno das migrações em massa. Sob um cenário turbulento passa a transitar, a contragosto, gente aflita e angustiada, gente em situação de perda constante, gente em busca de um lugar menos hostil para viver. Imensas levas de imigrantes buscavam encontrar, longe de pátria, um tempo-espaço que lhes restituísse a paz, que lhes permitisse estabelecer comunhão com o outro e consigo mesmos, que lhes devolvesse a dignidade perdida. Surgem assim as dicotomias que se tornam tão presentes no autor de “Léah”, reflexos do exílio individual e social do homem em que as ausências tantas encontram remanso apenas na memória das origens. Testemunha presencial desse tempo/espaço de tensão, José Rodrigues Miguéis logrou contar, ao longo de sua carreira de escritor, as histórias de homens divididos geográfica e psicologicamente, errantes no mundo e neles próprios, como o protagonista de “O Conto Alegre de Natal que não Escrevi”. As incertezas de uma época de contínua construção-desfazimento parecem projetar, nas personagens de seus contos, o estigma da divisão. Isso é o que se vê nas coletâneas Onde a noite se acaba (1946), Léah e outras histórias (1958), Gente da terceira classe (1962), Comércio com o inimigo (1973) e Pass(ç)os Confusos (1982, póstuma). E para melhor compreender os contos de Jose Rodrigues Miguéis, enquanto fusão de Arte e Vida, é possível recorrer à teoria dos cronotopos de Mikhail Bakhtin, mostrando como a inseparabilidade de tempo/espaço contribuem para a criação dos enredos, desde seu nascedouro até a situação-limite que alcança as personagens neles envolvidas. Pela atualização dos cronotopos clássicos de Bakhtin vê-se que em Miguéis a estrada transforma-se em viagem, o limiar assume a categoria cronotópica de fronteira e o encontro gera o cronotopo autobiográfico. Cabe ainda aplicar ao escritor de “A Bota”, de modo subsidiário, os conceitos de lugar antropológico e de não lugar, de Marc Augé e os estudos de personalidade e conflito cultural desenvolvidos por Everett V. Stonequist, a fim de reforçar a questão do não pertencimento do sujeito inserido num determinado espaço. A temática do exílio enquanto fuga, relacionada à perda da nacionalidade ou à solidão universal do homem, é recorrente no autor de “O Viajante Clandestino”. Somado a isso tudo há o exercício constante da rememoração, uma forma de recuperar e reviver o tempo da plenitude: o corpo aqui, o pensamento lá. Pela paisagem física que é também paisagem humana sobressaem-se dois temas aparentemente antagônicos mas que se mostram essenciais para conferir unidade estética à obra migueisiana: a ausência (enquanto perda do lugar existencial) e a recordação (exercício da saudade sentida). O tempo neles tratado – histórico ou psicológico – sobretudo nos contos ambientados em Portugal, prioriza o tempo passado, visto sob a ótica do tempo presente que se escora na memória das origens. Já o espaço dos acontecimentos narrados – territorial ou social, da terra natal ou do desterro – é um espaço dual, simbolizando o lugar de alegria/desencanto (Lisboa), do amor/desencontro (Bruxelas) ou de esperança/angústia (Nova Iorque). Em meio a esse jogo de contrários, a idealização da Lisboa provinciana qual cenário aberto da Avenida de Dona Genciana contrapõe-se à progressista Nova Iorque coberta pela neve do exílio. Paralela à questão da identidade que assola o estranho e o estrangeiro que habita o homem de lugar nenhum, a ideologia integra o universo ficcional de José Rodrigues Miguéis. O tempo-espaço de conflitos perpassado em seus contos projeta, inevitavelmente, essa dimensão política que separa opressores e oprimidos, distorção que foi acentuada pelos governos autoritários do século XX. O solo português enquanto espaço de fechamento, prolonga-se – por extensão marítima – ao espaço norte-americano da ilusão, em que a esperança imigrante é deixada no porto. Como se o navio cargueiro estivesse a transportar gado humano para a terra prometida, à procura da mesma liberdade sonhada pelo andarilho de “A Esquina do Vento”. E nas travessias imagéticas de José Rodrigues Miguéis há sempre um olhar solidário em relação aos mais fracos, àqueles que recebem o maná do “Arroz do Céu” ou as flores murchas de “Uma Carreira Cortada”. Esta vertente ideológica contida em sua obra, longe de ser panfletária, traduz uma ética voltada toda ela à causa do homem. Em meio ao exercício constante de ver a si mesmo e ao outro, unindo o pessoal ao social, é que o autor de “Regresso à Cúpula da Pena” – consciente de sua alma lusíada, dividida entre a dor do exílio e o apelo da saudade – sai em busca da reintegração.

Para um (auto)retrato do escritor no exílio em papel de Crónica
Ana Paula Coutinho (Universidade do Porto)

A partir de uma reflexão sobre a matriz ovidiana do escritor no exílio e sobre a adequação da crónica à condição de « desterritorializado », procurarei reconstituir o (auto)retrato que o escritor José Rodrigues Miguéis faz de si próprio ao longo das suas « Crónicas da América » e destacar algumas (in)coincidências com outros cronistas portugueses em igual mediação entre as duas margens do Atlântico.

Table 2 « Fictions autobiographiques »

O Milagre segundo Salomé, romance histórico e autobiográfico sobre o advento, vicissitudes e queda da Iª República
João Medina (Universidade de Lisboa)

José Rodrigues Miguéis (1901-1980) foi autor de várias obras de ficção onde evocou de maneira memorialística e intenção de relato e crítica romanesca a experiência que ele mesmo viveu entre a eclosão da revolução republicana de 1910 e a contra-revolução militar de 1926, sobretudo num díptico que abrange A Escola do Paraíso (1960) e O Milagre segundo Salomé (2 vols., 1975), sem esquecer a novela Saudades para Dona Genciana, incluída depois no volume Léah e outras Histórias (1958), na qual, através da narrativa de um punhado de vidas ligadas a uma grande artéria lisboeta, a Av. Almirante Reis, se faz uma micro-história do regime demoliberal, pautada por dramas, saques e turbulências que de certo modo sumarizavam a trajectória acidentada da década e meia de vigência do próprio regime republicano. Com O Milagre…, a sua memória e compreensão historiográfica desse mesmo período permitiu-lhe elaborar uma obra de largo arcabouço e densidade dramática narrativa, o que lhe confere o estatuto, como ele mesmo escreve no final da obra em torno do advento, calvário e queda da Iª República, de ser “o romance dela e da catástrofe política”. Nessa medida, como romance histórico, O Milagre… ombreia com Os Maias (1888) – três gerações do nosso regime monárquico-constitucional – de Eça ou Os Reinegros (1974, póst.) de Alves Redol – esta concentrada no estudo duma família da classe operária em Lisboa, desde os finais da Monarquia ao fracasso da tentativa de restauração monárquica com o fracassado golpe de Monsanto. O Milagre… tem um cunho autobiográfico evidente pelo facto de um dos seus narradores e personagens intervenientes directos ser um redactor da Seara Nova – aqui referida como A Sementeira -, na qual Miguéis foi assíduo colaborador com artigos e ilustrações, esse Gabriel Arcanjo, evidente auto-retrato do autor do livro. A esse grupo ideológico e político junta Miguéis um punhado de representantes das várias forças militares com diferentes opções políticas – v.g., o tenente sidonista Azaredo, o major Tristão Barroso e sobretudo o general ABC (Abel Belmarço do Couto), óbvio retrato de real Gomes da Costa, a Espada que degolaria a República em 28 de Maio, ele mesmo um dos signatários de um dos textos programáticos da revista seareira. A par deste grupo central, a acção descreve a ascensão dum humilde marçano, Severino Zambujeira, que chega a magnate financeiro do regime republicano, com o “Milagre de Meca” (a que estaria associada, ainda que involuntariamente, a sua amante, a ex-prostitutta Maria das Dores, a “Salomé”), ligado a poderosos grupos capitalistas estrangeiros, depressa tornado cúmplice de políticos republicanos que, como o deputado Mota Santos (Cunha Leal) preparam a queda do regime e o advento da Ditadura que se lhe seguirá, assim como se aproveitam das “aparições de Fátima” para montarem um negócio que a Igreja católica favorece.

A Escola do Paraíso – Récit de vie et lecture de l’histoire sociale
Catherine Dumas (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3)

Pour Miguéis, l’homme et l’écrivain « s’efforcent de transformer le monde ». Cette communication étudie comment, s’opposant en cela aux postulats de la « fin de l’Histoire », le roman A Escola do Paraíso travaille la fictionnalisation de l’histoire en abondant dans les sens des sociétés en mouvement, des dimensions du quotidien dans le récit historiographique et de la constitution d’un sujet complexe et de son horizon d’attente. Les propositions de la micro-histoire et l’esthétique du détail sont des outils pour l’analyse du roman. La poétisation du discours polyphonique et ses implications idéologiques font également l’objet d’une analyse attentive.

A patografia Um homem sorri à morte – com meia cara e a medicina narrativa
Francisco Cota Fagundes (University of Massachusetts Amherst)

Nas últimas duas décadas do século XX nos Estados Unidos desenvolveu-se um grande interesse teórico e crítico naquilo que em 1993 a estudiosa Anne Hawkins, adaptando um termo de Freud, designou por patografia e definiu como “uma narrativa autobiográfica ou biográfica sobre uma experiência de doença” (geralmente conhecida como illness narrative ou relato de doença). Dois anos depois, o sociólogo Arthur Frank editou um livro em que defende a tese que a doença, por razões com base psicológica, sociológica e ética, compele o paciente a contar a sua história. Em 2006, Rita Charon publica Narrative Medicine, contribuindo para teoricamente fundamentar e legitimar o campo, hoje rico em patografias e textos teóricos e críticos, da medicina narrativa. O meu trabalho fará uma leitura da patografia Um homem sorri à morte – com meia cara (1957) fundamentando-se em conceitos teóricos destes e de outros autores e na minha própria experiência como autor de um relato de doença (inédito). Apesar dos vários estudos sobre este texto migueisiano, continua a haver dúvidas sobre o seu caráter genérico (aliás, o livro já foi editado como novela) que, tido adequadamente em conta, nos ajudará a esclarecer muitos aspetos, até hoje criticamente por revelar e relevar, da sua extraordinária e (para a época em que foi escrita, 1957) inovadora riqueza literária.

Table 3 « Variations militantes »

José Rodrigues Miguéis na imprensa luso-americana de New Bedford: uma presença assídua
Duarte Miguel Barcelos Mendonça (Teatro Municipal Baltazar Dias, Funchal, Portugal)

Nesta comunicação Duarte Mendonça irá abordar a temática das diferentes facetas de José Rodrigues Miguéis patentes na imprensa luso-americana da « cidade baleeira » ao longo do século XX e dealbar do XXI. Nas páginas de muitos jornais da mais antiga comunidade portuguesa da costa leste dos Estados Unidos ficaram registados para a posteridade alguns aspectos da vivência deste insigne homem de Letras, nomeadamente enquanto orador, combatente político, escritor, ensaísta, conferencista, entre outros, que serão dados a conhecer. Como complemento a esta apresentação, Duarte Mendonça apresentará o seu projecto de edição em CD do LP que Miguéis gravou nos Estados Unidos declamando poesia portuguesa, do qual fará ouvir algumas faixas.

« Pourquoi nous écrivons…? » Des correspondances échangées entre José Rodrigues Miguéis et José Saramago : une analyse des idéologies liées à l’acte d’écriture
Cristiane Lima da Silva (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3)

Cette communication aura pour le but de faire une analyse de la correspondance échangée entre José Rodrigues Miguéis et José Saramago entre 1959 et 1971. Le premier, exilé aux États-Unis et le deuxième, prix Nobel de Littérature en 1998. Dans notre analyse, nous nous demanderons comment ces deux écrivains portugais font la différence entre leurs militances et la Littérature au service d’une idéologie et comment ils ressentent ou voient le Portugal de l’époque. Notamment, nous analyserons l’engagement de José Saramago, de son vivant, à faire connaître le nom et l’œuvre de José Rodrigues Miguéis par le biais de sa Fondation avec l’objectif de faire sortir ce grand écrivain de l’oubli.

Auteur engagé, une posture problématique
Georges Da Costa (Université de Caen Basse-Normandie)

Pendant de longues années, l’écrivain José Rodrigues Miguéis (1901-1980) a consacré la majeure partie de son temps et de son énergie au militantisme, que ce soit au Portugal ou aux États-Unis après son exil en 1935. Cet engagement, on le retrouve dans son oeuvre fictionnelle, publiée en très grande partie après 1958, alors que l’écrivain a cessé toute activité militante. Nous nous intéresserons ici à la relation complexe existant entre l’engagement politique de l’homme et la posture adoptée par l’écrivain.

Table 4 « Questions de genre »

Gente da Terceira Classe: manejar identidades numa plataforma movediça
Erik van Achter (KU Leuven)

A presente comunicação visa uma re-leitura dos contos contidos na coletânea Gente da Terceira Classe, não como contos individuais, mas antes como partes constitutivas de uma obra supra-textual, que o ciclo de contos integrados afinal é. Duas perspectivas diferentes mas pertencendo ao mesmo campo de estudos, nomeademente o das “short story studies”, serão exploradas. Em primeiro lugar, as modernas acquisições acerca do short story cycle capaz de revelar os principios da organização inter-textual, posteriormente atribuida pelo autor aquando da publicação final. Em Segundo lugar, mas não menos importante, os resultados teóricos recentemente divulgados acerca da liminalidade (liminality), conceito investido com grande capacidade explicativa no que a constituição de identidade diz respeito, sobretudo a identidade formada no exílio e na emigração. Tanto o conceito de ciclo de contos  assim como o de liminalidade podem ser considerados uma plataforma movediça, o suporte material imprescindìvel na construção da mundivisão basilar de José Rodrigues Miguéis.

La captation de la structure et des thèmes du roman policier par José Rodrigues Miguéis dans Uma Aventura Inquietante : emprunt, coïncidence ou subversion du genre policier ?
Pierre-Michel Pranville (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3)

Sans nul doute, Uma Aventura Inquietante est un roman policier. Il y a crime, enquête, un suspect emprisonné à tort, des fausses pistes, et une explication finale où le coupable est démasqué et l’innocent libéré. Mais c’est un roman policier trop respectueux sur la forme des canons du genre pour que l’on ne soit pas amené à poser plusieurs questions : le thème du roman se limite t-il à la seule enquête comme c’est le cas pour les romans à énigme des années 1930 ? Y a-t-il au-delà du mécanisme déductif de l’investigation des messages idéologiques ? Quelle signification donner au réalisme insistant des descriptions des procédures policières et aussi à celui des situations à la limite de la caricature ? Sur le fond, comment interpréter l’inversion des rôles suspect-enquêteur tout à fait novatrice, ainsi que le happy end et la morale de l’histoire que nous propose l’auteur ? Alors est-ce un roman policier ou une parodie de roman policier ? Pour nous aider à répondre ces questions, nous resituerons ce roman dans la littérature policière portugaise mais aussi belge des années 1930. Enfin, nous nous interrogerons sur la valeur ajoutée de l’outil que représente le genre policier dans la production romanesque de José Rodrigues Miguéis.

Tablóides
Ernesto Rodrigues (Universidade de Lisboa)

A recolha de Aforismos e Desaforismos de Aparício (1996), pela mão de Onésimo Teotónio Almeida, mostra um trânsito pessoal desde 1935, como em oficina de reflexão. Na introdução, este informa: «Camila Miguéis pensa que o escritor remeteu ‘Tablóides’ [a Jacinto Baptista, no Diário Popular] até muito mais perto do fim da vida, mas deles não há rasto no espólio.» (p. IX) De facto, após 17 de Abril de 1980, com que termina o volume, encontramos outros no suplemento ‘Letras-Artes’, importando confrontar os textos enviados a J. Baptista ‒ a partir da correspondência inédita de Miguéis, cedida pela Família daquele ‒ com os que são cortados pelo Autor ou por Baptista, autorizado, bem como as emendas e comentários que os acompanham, editados ou não. Sendo ‘Tablóide’ um título-prática desde 1938, veremos como se reforça nos últimos sete anos de vida, abrindo, todavia, pela etimologia e poética desta espécie de opinião.

Table 5 « Une œuvre à explorer »

Tesouros do Espólio de Miguéis: O Desenho como Linguagem Complementar na Obra do Autor
Ana Aguilar Franco (Universidade de Lisboa)

A comunicação irá incidir sobre o papel desempenhado pelo desenho no âmbito da construção narrativa, em articulação com a vertente autobiográfica e a visão jornalística, enquanto reflexo da condição multicultural de Miguéis, tendo como base, sobretudo, os documentos inéditos encontrados no espólio (Miguéis Archives, John Hay Library, Brown University), durante a pesquisa para o doutoramento sobre o escritor.

Clandestino, sem-papéis, imigrante. A anulação do corpo individual para a integração no corpo social
Karina Marques (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3)

Dans notre communication, nous nous proposons d’analyser les contes « O Viajante Clandestino », « O Cosme de Riba-Douro » et « Natal Branco » du recueil Gente da Terceira Classe de José Rodrigues Miguéis. Cette étude comparative a pour but de mettre en lumière les liens intimes qui relient l’idée de corps individuel à celle de corps social dans le discours de construction de l’identité nationale. Nous envisageons de montrer comment José Rodrigues Miguéis remet en cause la question des droits de l’homme dans le contexte de l’immigration, exprimant à travers l’image de l’annulation du corps des personnages le conflit entre le désir d’appartenance à la société américaine et le stigmate de l’étrangeté marqué sur leur peau.

Renato Lima – O Homem que obedeceu
Catarina Pereira Almeida (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3)

Renato Lima, protagonista e narrador na obra Páscoa Feliz comete um acto passível de vários entendimentos ou julgamentos. Pede no entanto (ao leitor) ou pede-nos que não o consideremos criminoso, pois como ele mesmo refere, ele é «o homem que obedeceu». Tentaremos por isso entender como esta obra de estreia de Miguéis em 1932 se constitui de um imenso génio. Logicamente imbuída de influências presencistas e daí ser facilmente compreensível que o núcleo de análise na obra seja a psique de Renato Lima, é uma obra que nos impele a problematizar outras questões. Impele-nos a pensar no autor e no mal-estar que já neste período sentia relativamente a Portugal, à sua Lisboa, ao período sociológico que a Pátria vivia. Um mal-estar que resultará em várias experiências no estrangeiro até à expatriação voluntária nos E.U.A. por volta de 1935. Mal-estar do qual o autor constrói Renato Lima e nesse sentido, Páscoa Feliz é prenúncio dos temas que regerão toda a obra de Miguéis. Trataremos desde logo a questão de consciência num corpo em exílio, exílio num mundo regido por homens sem deuses. No qual a legitimação identitária se faz pela afirmação do corpo, corpo de Renato Lima que contaminado pelo pseudo-capitalismo vai experimentar pela primeira vez da sua vida lugares de extrema liberdade e nos quais vai naufragar como o próprio refere. Assim, contaminados por essa ideia de que no fundo o exílio de Renato Lima é um exílio da humanidade e nesse sentido entendendo aquilo que Marc Augé refere como surmodernité, podemos compreender que o protagonista nesta obra de Miguéis oscilará entre um grau de nihilismo absoluto e um grau de amor filial ou de fides. Tentaremos assim entender em que medida a polifonia existente em Páscoa Feliz legitima que a associemos a outras obras ou autores. Muito especialmente a duas obras, Crime e Castigo, na qual Raskolnikov experiencia esse psicologismo russo tão atribuído à obra de Miguéis e Húmus do seu mestre Raul Brandão, na qual terá certamente bebido desse lodo no qual instala Renato.

O Mito do Salvador da Pátria em José Rodrigues Miguéis e João de Melo
Teresa Martins Marques (Universidade de Lisboa)

Focalizaremos o mito do salvador da Pátria como pressuposto de um ideário de alienação, nas obras de José Rodrigues Miguéis Nikalai! Nikalai!(1971) através do anarquista sósia e simulacro do Czar Nicolau II e O Milagre Segundo Salomé (1975) figurado pelo General ABC – Abílio Belmarço e Couto, a «Grande Figura Nacional», o «Sagrado Factor Comum, personificando uma nação de opereta . Nesta mesma linha migueisiana, analisaremos, na obra de João de Melo Entre Pássaro e Anjo ( 1987) o conto críptico-satírico «Postumografia de Pedro-O-Homem», onde sobressai a figura de Pedro, um velho homem com surdês à prova de carrilhão, carregado de honrarias e de gosma catarral, a quem o Primeiro Ministro, Dr. Mediócrito, incumbe da espinhosa missão de salvar as Finanças Públicas.

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